Saiba tudo sobre viajar com pets no avião

Com a chegada do fim de ano, com festas e férias, a necessidade de transporte aéreo cresce dramaticamente – e quem tem família multiespécie (com pets como filhos) vive um dilema. Onde e como levá-los? É seguro? Quais documentos são necessários? Quanto custa? Se você pensou em voar com seu cachorro ou gato certamente tem as dúvidas acima.

Reportagem publicada no Estadão

Isso sem falar em quem vai mudar de país, como é o caso da aposentada Maria Christina Mangueira: “Quais os direitos que possuímos no transporte aéreo? Existe legislação que permite a locomoção deles junto a tutores que dependem psicologicamente dos filhos caninos? Quais cuidados são necessários referente a saúde?”, questiona. 

As perguntas referentes a pets no avião crescem 80% nesta época do ano nos canais do Guia Pet Friendly. Abaixo, vamos responder algumas dessas dúvidas, mostrar as melhorias do setor e o mais importante: orientar como os pets devem ser preparados para voar, seja no porão ou na cabine.

Cabine ou porão?

Hoje, as companhias aéreas no Brasil transportam por ano, cada uma, cerca de 80 mil pets entre a cabine e o porão, sendo que a maioria vai dentro da aeronave. Apenas cães e gatos são permitidos a bordo. Para voos nacionais, você precisa do laudo do médico veterinário atestando que o pet esteja com boa saúde e sem nenhuma doença contagiosa (válido por 10 dias) e com a vacina da raiva em dia. 

Nas viagens internacionais, microchip, vacina da raiva, que deve ser dada antes de 45 dias para os Estados Unidos, 90 para a Europa e 6 meses para o Japão (alguns países também pedem a sorologia). A Austrália e a Nova Zelândia proíbem animais vindos do Brasil e os Estados Unidos não aceitam visto de turista, apenas de residente. 

Há duas formas de voar: na cabine ou no porão. Dentro da aeronave, há limitação de peso que varia entre as companhias aéreas. Na Gol é permitido para animais até 10 quilos (R$ 250 por trecho nacional e R$ 1.000 por internacional). Na LATAM e na Azul, o peso permitido é até 7 quilos. A Azul cobra R$ 250 por voo nacional e U$/EUR 150 por internacional; na LATAM, o custo é de R$ 200 por nacional e U$ 250 por internacional).  Lembrando que o peso da caixinha de transporte, que é chamada de kennel, deve ser considerada na conta final. 

Em todos os casos (seja na cabine ou no porão), o pet vai dentro da caixa e não pode sair dela. Na cabine, a caixa ou bolsa de transporte vai embaixo da poltrona da frente.

 Cherry dentro da bolsa de transporte na modalidade Pet na Cabine. Foto Arquivo Pessoal

Restrito, né? Estamos lutando para que essa norma mude – tenho fé de que os argumentos bem fundamentados vão provar que é possível transportar o pet na poltrona, com segurança para todos. O que você pensa disso? Já parou para refletir a respeito? Ou teve a necessidade de despachar um cachorro no porão do avião?

As companhias aéreas têm a obrigação de orientar os passageiros sobre  como transportar seus pets, que começa muito antes da hora do embarque: a adaptação à caixa de transporte é um dos pontos mais importantes para serem levados em consideração.

As mortes do golden retriever Zyon e do american bully Weiser em voos da LATAM, em setembro e outubro deste ano, poderiam ter sido evitadas com informação. E, sem dúvida, é necessário rever as normas vigentes em busca de um modelo adequado para contemplar o novo modelo de família com animais de estimação. 

Como já disse diversas vezes, não cogito despachar a Ella (minha sócia pet no Guia Pet Friendly e no blog) no bagageiro do avião e milito pela liberação de portes maiores a bordo mediante bom comportamento, sempre prezando a segurança e respeito dos demais passageiros, é claro. Inclusive, tenho um plano de ação para isso. 

Como contratar

O Pet na Cabine pela GOL é contratado durante a seleção de voo e tem um campo para colocar o nome do pet. Na LATAM e Azul é feito por telefone, achei burocrático e pouco amigável, passa a sensação de não sermos esperados.

Pet no porão em análise

A empresária e veterinária Juliana Stephani da empresa  PETFriendly Turismo, que assessora passageiros que precisam transportar seus pets no avião (R$ 850 para voos nacionais e R$ 5.545 para voos internacionais), já fez 700 embarques em quatro anos de empresa. Segundo ela, transportar o animal no porão não causa risco à saúde do pet, pois a pressão é igual à da cabine e a temperatura varia de 10 a 23 graus.

“O que mata o animal é o estresse. As companhias aéreas necessitam passar segurança para os passageiros, mandar informações de como o animal está antes, durante e depois da viagem, ele precisa ser rastreado”, opina.

Adaptação

E o que fazer com os animais que precisam voar porque suas famílias vão mudar de Estado ou de país? Devem ser abandonados? Claro que não. 

E quem não estiver disposto (ou não puder adestrar seu cão para ensiná-lo a ficar calmo durante a viagem, como os cães guias fazem)? O que fazer com os cães agressivos? Justamente pensando nesses casos que Stephani defende o transporte no porão. 

“Os animais que têm reatividade com outras pessoas e pets não podem voar a bordo e para eles o transporte como carga ou bagagem é inevitável, porém precisam ser acostumados a caixa de transporte”.

Veja bem, há diversos perfis de cães e gatos, assim como, de tutores. Quem quiser voar com seu pet a bordo terá que educá-lo e prepará-lo com treinamento e certificação. Entendo que devemos contemplar todos os tipos de passageiros. Entretanto, ressalto, não podemos deixar de preservar o bem estar do pet e para isso a adaptação à caixa não é opcional e, sim, obrigatória.

Holofotes nas caixas

Recebi a mensagem de um leitor pedindo a indicação de uma caixa de transporte mais barata. Minha resposta foi: não economize com isso, a vida do seu pet depende dela. Observei na conta do Instagram de um pet influencer que seu tutor o faz dormir em casa, no seu quarto, dentro de uma caixa, que obviamente tem um colchonete fofinho. Sabe o que ele está fazendo? Acostumando seu cachorro a gostar dela e vê-la como um ambiente seguro.

 O border collie Romeu que hoje só pode voar no porão. Foto: Arquivo pessoal

“Não adianta pegar seu pet e colocar na caixa dois dias antes do embarque, porque ele não vai gostar”, salienta Juliana, que indica a compra de caixas de plástico rígido, com colorações que não absorvam o calor, ou as de madeira, com película de proteção interna. Ambas precisam ter espaço suficiente para o animal levantar e dar uma volta. As caixas de metal absorvem o frio ou calor do ambiente e, por isso, não são indicadas.  

Como fazer a adaptação do pet à caixa

Sejamos honestos e realistas: o seu pet não vai gostar da caixa rapidamente. O treino deve começar em casa alguns meses antes do embarque. E, de preferência, com ele ainda filhote. 

Atribua a caixa a algo prazeroso. Para isso, coloque dentro dela petiscos, ossos e brinquedos interativos. Ensine brincadeiras na parte interna e mostre que ela não representa confinamento. Outro truque é colocar peças de roupa dele, para associar a familiaridade e conforto. 

O médico veterinário especializado em comportamento animal Felipe Siqueira, da Klug Pet, aconselha: “Há caixas que podem ser abertas no meio. Comece com elas e vá fechando aos poucos. Depois que a caixa não é mais um lugar assustador, evolua para o som das turbinas. No YouTube é possível encontrar o barulho do avião decolando – aumente gradativamente o volume e sempre atribua o ruído a petiscos, brincadeiras e carinho”.

 A filhote Carlota se familiarizando com a caixa de transporte. Foto Arquivo Pessoal

A continuidade dos treinos e empenho do tutor resultará na conquista da meta final que é fazer com que o pet veja a caixa como um ambiente seguro e não algo desconhecido e assustador. Está na sua mão. 

Precisa de caixa na cabine?

Mesmo para o animal que viaja na cabine, o pet não poderá sair da caixa em momento algum e ela deverá ser acomodada debaixo da poltrona da frente. Em um voo longo, essa situação pode ser bem incômoda para o pet, e seu tutor passará o tempo todo preocupado. 

“As exigências que as companhias aéreas usam hoje para o tamanho das caixas é absurdo e não é compatível com o tamanho do animal, pois em pé nenhum tem 24 centímetros de altura”, pontua Stephani. 

As companhias aéreas também têm as suas dores e reclamam dos passageiros que não obedecem às regras e são grosseiros com a tripulação. Não estaríamos seguindo normas retrógradas que precisam mudar? Afinal, muitos cachorros, estressados com o confinamento à caixa dentro da aeronave, latem, choram, urinam e fazem cocô. 

Dá para notar que o problema do pet dentro da caixa, seja no porão ou cabine, cai no tema estresse. A médica veterinária, comportamentalista e socióloga Juliana Gil, da Pisco Vet, esclarece: “O estresse é normal na vida de um animal. O problema é quando isso se torna traumático ou crônico”. 

Segundo ela, do ponto fisiológico, o estresse em um pet não levaria ele à morte, como pode acontecer com uma pessoa, por mal súbito cardiovascular. “Porém, essa situação irá alterar os hormônios neurotransmissores no organismo, o que pode ser um grande problema se o animal tiver uma doença crônica. Outro problema é a resposta comportamental ao medo, que, no caso do cão Weiser, transportado no voo da LATAM do dia 14 de outubro, foi fatal, pois o desespero de fugir fez com que ele roesse a madeira e morresse asfixiado com um pedaço dela.   

No âmbito político

Presidente da Comissão Nacional de Proteção e Defesa dos Animais da OAB/RJ, o biólogo e advogado Reynaldo Velloso vai realizar uma audiência pública para discutir o transporte de cães como carga em aeronaves. “O objetivo é justamente lembrar a população e as empresas de transporte aéreo que o animal é um ser vivo, que sente dor. Existe o animal humano e não humano, que também sente medo, frio, fome, tem sentimentos e deve ser tratado com dignidade”, salienta.

O deputado federal Fred Costa (Patriota-MG), que conta com o apoio do deputado estadual delegado Bruno Lima (PSL-SP), da delegacia de meio ambiente, já comunicou que vai criar um projeto de lei para regulamentar o transporte de animais em aviões.

Melhorias do setor

A LATAM suspendeu seu serviço de transporte dos pets como carga para analisar os procedimentos e retomará o serviço em dia 15 de dezembro. Nas novas regras estão: aumento da idade mínima para embarque (que era de 8 semanas e passará a ser de 16), tempo máximo de 24 horas entre a partida e a chegada ao destino e banimento do pernoite dos animais no terminal de embarque. Custa cada trecho de R$ 500 a R$ 900 dentro do Brasil (conforme o peso do pet) e de U$ 150 a U$ 300 para país mais longos no exterior (também depende do peso do pet). 

GOLLOG, divisão da GOL que cuida dos transportes no porão, acaba de inaugurar no aeroporto de Congonhas, em São Paulo, o Espaço Pet, na sua área interna, para os animais que estão viajando. A ideia é que no pré-embarque e desembarque eles tenham acesso a uma baia fechada, com água e ração, em um ambiente com ar condicionado. 

No serviço de carga da Gol (onde vão também outros animais além de cães e gatos) é preciso fazer a reserva antecipada. No serviço Sempre Comigo, o pode ser monitorado pelo tutor por meio de mensagens de texto, fotos e vídeos via WhatsApp, e inclui caixa de transporte da companhia. Custa R$ 850 cada trecho nacional e R$ 1.100 cada trecho internacional. 

A Azul não transporta pets no porão.

Uma nova geração de cães

Vejo uma geração de cachorros educados e preparados para participar de eventos sociais entre os seres humanos. Parte do nosso trabalho como Guia & Universidade Pet Friendly é incentivar os tutores a educarem seus cães. Lembrando que na maior parte das vezes a ajuda de um comportamentalista animal será necessária. Apenas dessa forma, o movimento pet friendly ganhará força e respeito de toda a sociedade, assim como das empresas privadas, que neste caso são as companhias aéreas. 

Como diz o advogado Velloso, “é um ser vivo que está viajando, não é uma bicicleta, um abajur, uma poltrona, um ventilador. O pet também sofre e sente angústia como nós. O ser humano precisa parar de achar que os animais são meros objetos. É necessário ter amor e compaixão para entender o assunto com profundidade”.